Armas
- ⚔️MotosserraLEG.
- ⚾Taco com pregosRARO
- 🧹VassouraCOMUM
Ninguém soube dizer com certeza onde começou. Alguns falavam de um rato morto nos túneis do metrô sob a Estação da Sé, aquele nó onde se cruzam as linhas azul e vermelha debaixo da catedral, debaixo do marco zero de São Paulo, debaixo de tudo. Outros apontavam para um contêiner sem identificação no Porto de Santos que a Receita Federal nunca abriu porque o sistema estava fora do ar e o backup do backup tinha dado pau. Uns poucos sussurravam sobre um laboratório no Instituto Butantan cujo sinal de emergência silenciou na noite de 12 de março e nunca mais voltou. O Butantan, que passou a vida inteira fabricando antídotos, não tinha antídoto para isso. No que todo mundo concorda: estourou numa terça-feira, às seis e meia da tarde. Horário de pico. A Marginal parada, como sempre. Só que desta vez não ia mais andar.
«Ao cair da noite, o MASP ainda brilhava sob os holofotes, dourando uma cidade que já não tinha nada de vivo. A Avenida Paulista, deserta, estava coberta de carrinhos caídos e sapatos abandonados. E na escuridão, ela tinha fome.»
Da katana à marioneta do Billy. Do tanque de combate ao anão de jardim. Cada sobrevivente leva 3 objetos: escolhe bem. Desbloqueia novo equipamento ao ganhar experiência.
As refeições tornam-se obras de arte. A moral da equipa nunca desce abaixo dos 60%.
As equipas que ainda têm informação do mundo antigo aguentam mais tempo. Faz login para ativar o bónus permanente.
A coroa impõe respeito mesmo no caos. O líder irradia presença, ninguém contesta as suas ordens.
▌ DE 0 A 1200+ · DE «COMIDA DE ZOMBIES» AO «MODO DEUS»
Lança a simulação. Descobre o teu Survival Score. Partilha a equipa. Cada decisão conta. Cada dia aproxima-te do MODO DEUS, ou da morte.
▌ 4 transmissões para ler antes de formar a equipa
Os primeiros casos apareceram na Estação da Luz. Passageiros descendo do trem da CPTM cambaleando, cinzentos, desabando nas plataformas antes de se levantarem com uma lentidão mecânica, olhos vidrados, mandíbula pendente, dedos se contorcendo. Os seguranças da estação acharam que era crack. Na Cracolândia ali do lado, aquilo não era novidade. Depois começaram as mordidas.
Em menos de duas horas, o metrô de São Paulo, seis linhas, oitenta e nove estações, aquele sistema que transporta cinco milhões de pessoas por dia espremidas como sardinhas em lata e que já era um inferno antes do apocalipse, virou um matadouro. A Linha 3-Vermelha, a mais lotada, a que cruza a cidade inteira de leste a oeste, de Corinthians-Itaquera até a Barra Funda, se transformou numa armadilha: composições abarrotadas seguiam andando, portas travadas, gritos que morriam vagão por vagão, estação por estação. Na Estação Sé, onde as duas linhas principais se cruzam debaixo da praça onde os moradores de rua já viviam como se o mundo tivesse acabado, milhares de pessoas ficaram prensadas entre as catracas e a maré cinza que subia dos trilhos.
Na superfície, São Paulo não entendeu na hora. Na Avenida Paulista, os executivos ainda saíam dos prédios de vidro da Faria Lima e da Berrini quando os primeiros infectados escalaram as grades de ventilação do metrô na frente do MASP, tropeçando na luz dos postes, passando pelo vão livre onde todo domingo tem feira e manifestação e gente vendendo churros. O povo filmou. Claro que filmou. O vídeo de um cara de terno e gravata mordendo um motoboy na esquina da Consolação com a Paulista, um motoboy que provavelmente estava entregando um iFood e que morreu sem saber que o pedido era ele, viralizou: quarenta e dois milhões de visualizações antes da internet cair. O Brasil inteiro assistiu. E compartilhou. E fez meme. Até não dar mais pra fazer meme.
O governador falou em calma e coordenação às 18:47 do Palácio dos Bandeirantes. Às 19:15, o Palácio estava no escuro. Às 20:02, no Quartel General da PM na rua Jorge Miranda ninguém mais atendia. São Paulo, a cidade que se orgulha de não parar nunca, de trabalhar enquanto os outros dormem, descobriu que existe uma diferença entre não parar e não conseguir parar.
A Polícia Militar tentou bloquear as marginais, a Tietê e a Pinheiros, aqueles dois rios mortos que cortam a cidade como cicatrizes de concreto. Mas São Paulo não é uma cidade que se bloqueia. São Paulo é vinte e dois milhões de pessoas empilhadas em doze mil quilômetros quadrados de caos vertical, um labirinto de viadutos, túneis, becos, vielas, favelas penduradas em morros e condomínios fechados que achavam que o muro os protegia. Os muros protegiam de assalto. Não protegiam disso.
A Cracolândia caiu primeiro, mas ninguém percebeu porque ninguém prestava atenção na Cracolândia antes. Em Paraisópolis, a segunda maior favela da cidade, espremida entre os prédios de luxo do Morumbi, os moradores montaram barricadas com geladeiras, sofás e chapas de zinco. Aguentaram a noite inteira. Quando amanheceu, o silêncio que desceu sobre os becos era diferente de qualquer silêncio que Paraisópolis já tivesse conhecido. Em Heliópolis, foi a mesma coisa. A periferia, que sempre soube que o Estado não viria salvar ninguém, não esperou pelo Estado. E mesmo assim não bastou.
Na Rua 25 de Março, aquela artéria de comércio popular onde cabem mais pessoas por metro quadrado do que em qualquer outro lugar do hemisfério sul, as barracas de camelô foram atropeladas pela multidão em pânico. Nos Jardins, as boutiques da Oscar Freire tinham as vitrines estilhaçadas. No Beco do Batman na Vila Madalena, os grafites que cobriam cada centímetro de muro estavam salpicados de algo que não era tinta.
No Estádio do Morumbi, as setenta e duas mil cadeiras vazias refletiam os holofotes. Sombras se arrastavam pelo gramado onde Rogério Ceni defendeu e fez gols, onde o São Paulo ganhou mundiais, onde o grito da torcida já tremeu o chão de verdade. No Allianz Parque, mesma coisa. No Neo Química Arena em Itaquera, mesma coisa. Os três estádios vazios, como três bocas abertas sem voz.
Na Avenida Paulista, o MASP ainda flutuava sobre seus pilotis vermelhos, suspenso no ar como sempre esteve, como se recusasse a tocar o chão de uma cidade que já não merecia ser tocada. Dentro, os quadros de Portinari, Tarsila, Di Cavalcanti olhavam para paredes que ninguém mais olhava.
São Paulo. A locomotiva do Brasil. A cidade que nunca para.
Parou.
E na escuridão entre os arranha-céus e as favelas, entre os viadutos e as vielas, entre o concreto e o mato que insiste em crescer nas rachaduras, vinte e dois milhões de bocas se abriram. Não pra falar. Não pra gritar. Não pra buzinar no trânsito. Pra morder.