Armas
- ⚔️MotosserraLEG.
- ⚾Taco com pregosRARO
- 🧹VassouraCOMUM
Ninguém soube dizer com certeza onde começou. Alguns falavam de um rato morto nos túneis do metro sob o Terreiro do Paço, ali onde o rio Tejo beija a cidade e onde durante séculos os navios partiram para descobrir o mundo e trouxeram de volta especiarias, ouro e coisas que ninguém queria. Outros apontavam para um contentor sem marcação no porto de Lisboa que a alfândega nunca abriu porque o funcionário estava de baixa e o substituto estava no café. Uns poucos sussurravam sobre um laboratório no Instituto Gulbenkian de Ciência em Oeiras cuja frequência de emergência emudeceu na noite de 12 de março e nunca mais voltou a emitir. No que todos concordam: rebentou numa terça-feira, em plena hora de ponta.
«Ao cair da noite, o Castelo de São Jorge ainda era iluminado, dourando uma cidade que já não tinha nada de vivo. A Avenida da Liberdade, deserta, estava coberta de carrinhos caídos e sapatos abandonados. E na escuridão, ela tinha fome.»
Da katana à marioneta do Billy. Do tanque de combate ao anão de jardim. Cada sobrevivente leva 3 objetos: escolhe bem. Desbloqueia novo equipamento ao ganhar experiência.
As refeições tornam-se obras de arte. A moral da equipa nunca desce abaixo dos 60%.
As equipas que ainda têm informação do mundo antigo aguentam mais tempo. Faz login para ativar o bónus permanente.
A coroa impõe respeito mesmo no caos. O líder irradia presença, ninguém contesta as suas ordens.
▌ DE 0 A 1200+ · DE «COMIDA DE ZOMBIES» AO «MODO DEUS»
Lança a simulação. Descobre o teu Survival Score. Partilha a equipa. Cada decisão conta. Cada dia aproxima-te do MODO DEUS, ou da morte.
▌ 4 transmissões para ler antes de formar a equipa
Os primeiros casos apareceram na estação do Cais do Sodré. Passageiros a cambalear para fora dos comboios da linha de Cascais, cinzentos, a desabar nas plataformas antes de se levantarem com uma lentidão mecânica, olhos vidrados, queixo pendente, dedos a contorcer-se. Os seguranças da CP pensaram primeiro num mal-estar colectivo. Depois começaram as mordidelas.
Em menos de duas horas, o metro de Lisboa, quatro linhas, cinquenta e seis estações, aquela rede que os lisboetas já achavam pequena e sempre atrasada, transformou-se num matadouro. A Linha Verde, que desce de Telheiras até o Cais do Sodré pelo coração da cidade, tornou-se uma armadilha mortal: composições apinhadas que continuavam a andar, portas bloqueadas, gritos que se apagavam carruagem por carruagem. Na estação do Marquês de Pombal, sob a rotunda e a estátua do homem que reconstruiu Lisboa depois do terramoto de 1755, milhares de pessoas ficaram encurraladas entre os torniquetes e a maré cinzenta que subia dos túneis. Pombal tinha reconstruído a cidade uma vez. Não haveria segunda vez.
À superfície, Lisboa não percebeu logo. Nas esplanadas do Chiado ainda serviam bicas e pastéis de nata quando os primeiros infectados emergiram das bocas do metro na Avenida da Liberdade, tropeçando na luz do fim da tarde, passando pelas lojas de luxo que substituíram os velhos cafés, porque Lisboa morre sempre duas vezes, primeiro de saudade e depois a sério. As pessoas filmaram. Claro que filmaram. O vídeo de um tipo com a camisola do Benfica a morder um empregado de mesa no Café A Brasileira, mesmo ao lado da estátua do Fernando Pessoa que ali está sentado desde 1988 a olhar para o nada com aquele ar de quem já sabia, tornou-se viral: vinte e sete milhões de visualizações antes de a internet cair.
O Primeiro-Ministro falou às 18:47 de São Bento. Às 19:15, São Bento estava às escuras. Às 20:02, no Ministério da Administração Interna na Praça do Comércio ninguém atendia. Portugal, o país que sobreviveu ao terramoto, ao tsunami, ao incêndio de 1755, à ditadura, à revolução, à troika, descobria agora que há coisas que nem os brandos costumes conseguem amansar.
O Exército tentou segurar as pontes. Lisboa é uma cidade de colinas e de um rio, e quem controla as pontes controla a margem. Bloquearam a Ponte 25 de Abril, essa irmã mais nova da Golden Gate que se chama como uma revolução. Bloquearam a Vasco da Gama, dezassete quilómetros de betão sobre o Tejo. Mas Lisboa não se fecha. Esta cidade desliza por sete colinas como água, escorre por becos, vielas, escadinhas que não têm nome, calçadas onde nem os carros passam. Os eléctricos amarelos, aqueles que os turistas fotografam como se fossem atrações e que para os lisboetas são só transportes que nunca chegam a horas, estavam parados nos carris, vazios, inclinados nas ruas íngremes como brinquedos abandonados.
A Mouraria caiu primeiro. Nos becos onde o fado nasceu, entre as casas de fachadas azulejadas onde as velhas estendiam roupa e os restaurantes nepaleses serviam momos ao lado de tascas que serviam febras, o silêncio chegou de repente. Em Alfama, o bairro mais antigo, o que sobreviveu ao terramoto porque está construído em rocha, as portas medievais foram trancadas. Mas portas medievais não param o que não precisa de respirar. No Bairro Alto, as ruelas onde todas as noites milhares de pessoas bebiam em copos de plástico na rua, os copos de plástico rolavam pelo chão misturados com coisas piores.
No Estádio da Luz, sessenta e cinco mil lugares vazios. Sombras arrastavam-se pelo relvado onde Eusébio correu, onde o Benfica sonhou, onde o grito de golo fez tremer a cidade tantas vezes. No outro lado da Segunda Circular, em Alvalade, o estádio do Sporting estava igualmente vazio. Pela primeira vez na história, os dois rivais estavam em perfeita igualdade. Zero a zero. Para sempre.
Da Torre de Belém, aquela jóia manuelina à beira do Tejo de onde Vasco da Gama partiu para a Índia e de onde Portugal partiu para o mundo, via-se o rio negro e calmo. O Padrão dos Descobrimentos, aquele grupo de figuras de pedra apontando para o mar, apontava agora para o nada. O Mosteiro dos Jerónimos, onde Camões está enterrado e onde Pessoa está enterrado e onde a glória de Portugal descansa em pedra lavrada, estava fechado e escuro.
Lisboa. A cidade da saudade. A cidade de Pessoa, que escreveu que o poeta é um fingidor. A cidade de Amália, que cantou que tudo isto é fado.
Tudo isto foi fado.
E na escuridão entre os azulejos e as ruínas, entre os miradouros e os becos, entre o fado e o silêncio, dois milhões de bocas abriram-se. Não para falar. Não para cantar. Não para suspirar de saudade. Para morder.